terça-feira, 19 de junho de 2012

E tudo acaba voltando

A história que publico a seguir foi escrita no ano passado (2011), e foi escolhida para ser publicada em um livro, porém "forças maiores" vetaram a publicação, por considerarem a história preconceituosa. Gostaria que vocês lessem e me dissessem o que acham, se concordam ou não com as "forças maiores".


E tudo acaba voltando

Sempre fomos ótimos amigos, desde a primeira série do Ensino Fundamental, me chamo Fabiano, meu amigo, Alessandro. Estudávamos, fazíamos os trabalhos escolares, brincávamos, éramos inseparáveis. Com o passar do tempo, a amizade foi se tornando mais forte e assim seguiu até a adolescência. Porém, nesse período começaram a haver as divergências, brigas e opiniões opostas. Alessandro era o típico adolescente: jogava futebol, azarava as meninas, fazia muito sucesso com elas. Afinal, ele era realmente muito bonito, de causar inveja, mas não a mim, eu não sentia inveja de Alessandro. Na realidade, eu achava tudo isso uma tremenda bobagem, preferia ficar em casa ouvindo música, e tentando entender o que meus cantores favoritos estavam falando.
Já no Ensino Médio, acabamos nos afastando, comecei a ser apontado como “bichinha” pelos colegas de aula, e Alessandro em momento algum tentou me defender, apenas afastava-se ainda mais. Nos momentos mais difíceis de minha vida, eu não tinha a quem recorrer, me trancava no quarto e ficava ouvindo músicas em inglês, minhas preferidas. Muitas vezes encontrava nas letras das músicas as palavras que precisava ouvir de um amigo.
Na última conversa que tivemos, ambos falávamos no futuro, em o que faríamos depois de terminar o Ensino Médio, expectativas, medos e dúvidas. Alessandro falou que iria ser médico, ganhar muito dinheiro e “pegar” muitas mulheres. Eu falei que queria fazer Letras Português/Inglês, queria ser professor. Alessandro, na mesma, hora caiu na gargalhada, debochou descaradamente de mim, dizendo que eu estudaria para ser um palhaço do governo, que eu deveria divertir as crianças em troca das migalhas que eu receberia. Fiquei furioso com ele, mas não tive a reação normal de um adolescente, não discuti, não briguei, apenas me levantei e fui embora.
Depois dessa última conversa, nunca mais nos procuramos, era como se nem morássemos na mesma cidade, talvez por não frequentarmos os mesmos tipos de lugares ou não participarmos do mesmo círculo de amizade.
O tempo passou, entrei na faculdade que tanto sonhava, me formei e estou dando aula de inglês. Mas na última semana, algo muito estranho aconteceu comigo. Eu estava indo para a escola onde leciono, quando parei meu carro em um semáforo, vi um rapaz pintado de palhaço fazendo malabarismos em troca de moedas, fixei meu olhar e pude perceber que conhecia aquele rosto. Rosto que, quando cruzou o olhar com o meu ficou totalmente sem jeito, virou para o outro lado e fez como se não me conhecesse. Juro que não fiquei feliz com o que vi, mas achei uma ironia do destino ver aquele menino que um dia debochou da profissão que eu havia escolhido, aquele que disse que eu seria um palhaço, mendigando por migalhas.
Alessandro que agora é o palhaço, não conseguiu ser o médico “pegador”. Eu realizei meu sonho, sem falsa modéstia, sou um ótimo professor de inglês. Isso não torna Alessandro menos digno do que eu, apenas prova que somos todos iguais, e que um dia os papéis podem acabar invertidos.
John Peter Ayres

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